A mobilidade urbana do Distrito Federal alcançou nível de passageiros equivalente ao período anterior à pandemia de covid-19. Dados da Secretaria de Transporte e Mobilidade confirmam o retorno aos 800 mil usuários diários registrados em fevereiro de 2020. O resultado posiciona a capital federal entre as raras regiões do país a superar completamente os impactos da crise sanitária no transporte público. Levantamento da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos indica que a maioria das capitais brasileiras ainda opera com redução de 15% a 30% na demanda diária. Desde julho de 2024, o pagamento digital foi universalizado em todo o sistema. As 1.247 linhas de ônibus e as duas linhas do metrô funcionam exclusivamente com cartão Mobilidade, vale-transporte eletrônico ou cartões bancários por aproximação, eliminando o uso de dinheiro físico. ## Frota mantida durante crise garantiu confiança A continuidade da oferta durante os períodos mais críticos da pandemia preservou a credibilidade do sistema junto aos usuários. A Secretaria de Transporte e Mobilidade manteve os 2.100 ônibus em operação mesmo nos momentos de maior restrição sanitária. "A manutenção da oferta durante a pandemia foi fundamental para preservarmos a confiança do usuário", declarou o secretário Zeno Gonçalves. A estratégia contrariou a tendência nacional de redução drástica da frota durante 2020 e 2021. O Plano Diretor de Transporte Urbano está sendo reformulado em parceria com a Universidade Federal de Santa Catarina. A nova versão, esperada para meados de 2025, deve refletir as transformações demográficas da última década. ## Crescimento populacional exige adaptações A população do DF expandiu 18% desde 2010, alcançando 3,1 milhões de habitantes espalhados por 35 regiões administrativas. O crescimento acelerado gerou novos desafios para a cobertura do transporte público. Investimentos de R$ 2,8 bilhões foram aplicados na infraestrutura viária nos últimos quatro anos, combinando recursos federais e distritais. As intervenções incluíram a duplicação da BR-080/DF e aprimoramentos em 15 vias estruturais da capital. Regiões periféricas como Sol Nascente, Arniqueira e Vicente Pires concentram 400 mil moradores, mas enfrentam dificuldades de integração com o transporte público. O acesso ao Plano Piloto ainda requer conexões complexas para esses usuários. ## Especialistas apontam defasagem na expansão Por que a cobertura permanece irregular nas áreas de crescimento recente? O urbanista Carlos Brasília, da Universidade de Brasília, identifica descompasso entre expansão urbana e ampliação do sistema. "O DF precisa priorizar corredores exclusivos e sistemas de média capacidade para conectar as extremidades", avalia o especialista. A observação reflete os gargalos enfrentados por moradores das regiões mais distantes. A Companhia do Metropolitano planeja construir um sistema BRT conectando Samambaia ao centro até 2027. O projeto de R$ 800 milhões deve atender 180 mil passageiros diários das regiões Sul e Sudoeste. ## Tempo de deslocamento supera média nacional O tempo médio de trajeto casa-trabalho permanece em 52 minutos, conforme pesquisa origem-destino da Companhia de Planejamento. O índice ultrapassa a média brasileira de 43 minutos, evidenciando limitações estruturais da mobilidade urbana. Nos horários de pico, o Eixão Sul registra velocidade de apenas 18 km/h entre 7h e 9h. A Estrada Parque Núcleo Bandeirante opera com 15 km/h no mesmo período, demonstrando os congestionamentos persistentes. As faixas exclusivas para ônibus cobrem somente 12% da malha viária prioritária. A limitação compromete a eficiência do transporte público em competir com o transporte individual. ## Recursos garantidos por lei asseguram continuidade O Fundo Distrital de Transporte Público e Mobilidade Urbana, estabelecido em 2023, destina R$ 150 milhões anuais para custeio e expansão. A legislação fixa percentual do orçamento distrital ao setor, blindando-o de oscilações políticas. A gratuidade implementada aos domingos e feriados em 2023 elevou a demanda em 35% nos fins de semana. O governo analisa estender a medida para sábados e horários de menor movimento durante a semana. Cinco estações multimodais estão previstas até 2026 para ampliar a integração entre ônibus e metrô. O projeto visa conectar as principais regiões administrativas ao sistema de alta capacidade através de terminais de integração. A sustentabilidade das políticas de mobilidade urbana adotadas pelo DF enfrentará teste definitivo nos próximos anos. O crescimento populacional projetado de 8% demandará nova ampliação da capacidade, enquanto o desafio central de universalizar o acesso eficiente permanece concentrado nas regiões periféricas mais afastadas do centro administrativo.